quarta-feira, fevereiro 13, 2008

APAIXONADOS (by Martha Medeiros)*

Ilustração disponível em: http://www.josetelmo.com/

No filme "Crimes e Pecados", de Woody Allen, um certo Professor Levy, personagem da história, diz que nos apaixonamos para corrigir o nosso passado. Frase rápida, aparentemente simples, e no entanto com um significado tão perturbador.

A questão não é por que nos apaixonamos por Roberto e não por Vítor, ou por que nos apaixonamos por Elvira e não por Débora. A questão é: por que nos apaixonamos? Estamos sempre tentando justificar a escolha de um parceiro em detrimento de outro, e não raro dizemos: "não entendo como fui me apaixonar logo por ele". Mas não é isso que importa. Poderia ser qualquer um. A verdade é que a gente decide se apaixonar. Está predisposto a se envolver - o candidato a este amor tem que cumprir certos requisitos, lógico, mas ele não é a razão primeira por termos sucumbido. A razão primeira somos nós mesmos.

Cada vez que nos apaixonamos, estamos tendo uma nova chance de acertar. Estamos tendo a oportunidade de zerar nosso velocímetro. De sermos estreantes. Uma pessoa acaba de entrar na sua vida, você é zero km para ela. Tanto as informações que você passar quanto as atitudes que tomar serão novidade suprema - é a chance de você ser quem não conseguiu ser até agora.

Um novo amor é a platéia ideal para nos reafirmarmos. Nada será cobrado nos primeiros momentos, você larga com vantagem, há expectativa em relação a suas idéias e emoções, e boa vontade para aplaudi-las. Você é dono do roteiro, você conduz a trama, apresenta seu personagem. Estar apaixonado por outro é, basicamente, estar apaixonado por si mesmo, em novíssima versão.

É arriscado escrever sobre um tema que é constantemente debatido por profissionais credenciados para tal, mas não consigo evitá-lo. Mesmo amadora, sempre fui fascinada pelas sutilezas das relações amorosas. Cada vez que alguém diz que está precisando se apaixonar, está é precisando corrigir o passado, como diz o personagem do filme. Quantas mulheres e homens manifestam, entre suspiros, este desejo, mesmo estando casados? Um sem-número deles, quase todos nós, atordoados com a própria inquietude. E no entanto é simples de entender.

Mesmo as pessoas felizes precisam reavaliar escolhas, confirmar sentimentos, renovar os votos. Apaixonar-se de novo pelo mesmo marido ou pela mesma mulher nem sempre dá conta disso. Eles já conhecem todos os nossos truques, sabem contra o quê a gente briga, e no momento o que precisamos é de alguém virgem de nós, que permita a recriação de nós mesmos. Precisamos nos apaixonar para justamente corrigir o que fizemos de errado enquanto compartilhávamos a vida com nossos parceiros. Sem que isso signifique abrir mão deles.

Isso explica o fato de pessoas sentirem necessidade de relações paralelas mesmo estando felizes com a oficial. Explica, mas não alivia. Como é complicado viver.



*Esta é sem dúvida a minha escritora favorita... transmite de forma clara e simples os sentimentos mais profundos.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

METADE DE MIM (by Rê Michelotti)


Sempre escuto as pessoas falando sobre suas "metades": a cara-metade, a metade da maçã (acho meio ridícula essa, rsss), a tampa da panela e por aí vai... sempre no sentido de que alguém possa nos preencher ou completar. Então fico pensando... se descobríssemos quem somos e qual nossa verdadeira essência, talvez não precisássemos nos apoiar tanto nos outros... mas sinto que as pessoas de modo geral têm medo de se assumir como verdadeiramente são. E, entendo!

Aceitarmos como somos, é uma questão de desejo e busca. E é preciso que estejamos preparados para o que vamos encontrar em nosso íntimo.

Comecei a pensar nisso hoje quando minha amiga Isa presenteou-me com um trecho de uma linda música, que achei muito interessante:

"Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
E a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável ".
(Oswaldo Montenegro)

Pouco a pouco vou me descobrindo, me encontrando, me aceitando... pois como disse Oswaldo: Metade de mim é o que penso...e a outra metade, um vulcão... e ainda assim desejo viver em paz comigo mesma!