sexta-feira, setembro 10, 2010

DIVAGAÇÕES: VIVER & MORRER (by Rê Michelotti)

Imagem disponível em:http://suefb.blog.uol.com.br/images/alicinamil_homens_flor.jpg

Em momentos assim, é difícil definir exatamente o que se sente, o que nos vai na alma verdadeiramente. É um misto de sentimentos que demoram a sair do labirinto da nossa mente, para que finalmente possamos ao menos tentar racionalizar o que é possível.

Acreditamos que a possibilidade da antecipação de determinados fatos não tão bons da vida, nos darão condições de estarmos ou de nos sentirmos mais preparados para quando estes se concretizarem. Que estaremos mais fortes para enfrentar cada momento difícil e que de alguma forma já havia sido previsto. Grande ilusão!

Para determinadas coisas da vida, a gente pode pensar mil vezes, buscar racionalizar outras mil e uma vezes... Mas nunca o que supostamente acreditamos saber, pode ser comparado com o que realmente é!

Encontrá-la sem mais nenhuma possibilidade de vida, causou-me uma dor muito grande. A dor da certeza que se materializa frente a prova incontestável da verdade absoluta que se pode até tocar. O fim de sua passagem aqui nesta vida... E talvez, o reínicio em outra dimensão. Sinceramente, procuro apenas pensar que será um lugar melhor do que este em que vivemos. Isso me basta.

Cada um tem seu jeito de expressar sua dor, sua perda, sua falta... e quem sou eu para julgar ou comparar os sentimentos dos outros. No entanto, em momento algum eu pude me desligar daquele que fez da minha mãe sua maior motivação de viver, lutar e crescer. Daquele que com ela partilhou coisas boas, ruins, tristes ou alegres. Daquele que foi seu companheiro de todas as horas durante 20 anos em que dividiram não só a mesma cama, mas o mesmo teto, a mesma família. Que dividiram vidas e experiências únicas que só a eles pertenceu.

Todos sentiram e vão continuar ainda sentindo por muito tempo a ausência, a saudade da presença, da fala, do riso e até mesmo do choro que lhe era tão presente, por ter sido sempre uma mulher ''a flor da pele''. É sempre muito triste perder aqueles que nos são tão próximos, mais que isso, nos são tão especiais e a nossa maneira amamos profundamente. Mas eles se vão e nós temos que continuar... E para ele, a tarefa vai ser com certeza muito pesada. Daqui pra frente, ele continua sua caminhada sem a mulher com quem ele vivia todos os momentos de sua vida. Essa é a parte mais triste que se pode vivenciar.

Após os atos funebres, o levavamos para casa... A casa que era "deles", agora configura-se apenas como a casa "dele". Tenho certeza que meus olhos assistiram neste momento a uma cena breve, mas que eu jamais vou esquecer: Ele desceu do carro, se despediu com um leve sorriso de quem agradece a gentileza de o ter deixado em casa e começa dar os primeiros passos em direção a casa. Casa que daqui pra frente será apenas ''dele''... Não mais que meia dúzia de passos o afastam do carro e na mesma proporção o aproxíma da casa... Observo ele caminhando lentamente, como quem reza para que demore a chegar lá... Põe a mão no bolso e tira um pequeno lenço amassado... Leva aos seus olhos e seca as lágrimas que insistem em cair. A dor da separação, da perda e do início de uma longa saudade que sabemos jamais será satifeita aqui nesta vida.

Fiquei eu então tentando me aproximar do que ele pensava naquele breve instante... Tantas coisas devem ter vindo a mente dele. Como sempre dizem, um filme deve ter passado a vida dos dois inteira num momento tão pequeno. Quantos questionamentos de como ele poderá seguir agora sem a presença e companhia dela. E aí, recordei-me de um texto que li certa vez, que era justamente sobre esses momentos tristes que vem com a morte de alguém tão próximo, da morte do nosso amor... Texto supostamente escrito por um homem, que o tempo todo diz desejar que sua mulher morra antes dele... E somente no final ele declara exatamente as razões desse desejo. Pelo desejo de poupar sua mulher da dor da perda, da solidão e da saudade. Ele não queria que ela passasse por algo que para ele era tão doloroso só de pensar... E que então fosse ela a primeira a morrer, para que ele sentisse todas essas dores e aflições que vem com a perda de um amor que se vai assim, desse jeito...

Isso tudo foi imensamente forte e marcante pra mim... Não foi minha primeira perda significativa, pois já tive outras: meu pai, uma irmã, alguns irmãos e uma tia muito especial. Isso sempre mexe muito com a gente, mas por outro lado nos faz rever conceitos e como vivemos nossa própria vida. Aí fiquei aqui divagando sobre a vida e a morte....

Quando adolescente pensava na morte de maneira bastante egoísta... Porque basicamente a minha morte me assustava. O medo do desconhecido, do não saber como ou para onde seriamos levados quando nossa vida aqui na terra fosse encerrada definitivamente. Saber da morte de alguém automaticamente me levava ao encontro dos meus próprios medos.

Mas o tempo passa, a gente cresce, aprende e amadurece tantas coisas em nossa cabeça, inclusive as tão misteriosas e incertas quanto a morte. Se estabelecemos um conceito certo ou errado acerca disso, não sei... Mas que estabelecemos algumas verdades particulares, estabelecemos!

Nossa vida aqui é uma passagem, não mais que isso. Uma passagem que se molda e toma a forma e o gosto dos lugares em que estivemos, das pessoas que conhecemos, das emoções e sentimentos que nos fizeram sentir ou que nós mesmos nos permitimos vivenciar.

Pensar nessa breve passagem me faz perceber o quanto o tempo é precioso... E mais do que isso, que todo tempo gasto não se recupera mais. Não podemos desperdiçar nosso tempo com pequenas experimentações ou tentativas. Não podemos desperdiçar nosso tempo com longos projetos elaborados e incertos. Entendo que rascunhos são sempre uma forma de tentar encontrar uma certeza, uma segurança de que tudo vai dar certo. No entanto, nem sempre conseguimos que o nosso rascunho seja passado a limpo!

Não se precisa pensar viver cada dia como se fosse o nosso último, isso soaria um tanto dramático demais. Mas viver como esse fosse mais um dia especial e fazer dele mais um dos tantos "melhores dias" de nossas vidas. Viver com intensidade, vontade... Lembrando que para isso, não precisamos ser impulsivos, imprudentes ou inconsequentes. Precisamos apenas de um pouco mais de coragem.

Não vamos perder a sensatez, mas vamos tentar viver de maneira mais corajosa... Como quem tem nas mãos um rolo de formulário contínuo, que não nos permite saber exatamente onde o papel vai acabar ao final do rolo... E para escrever, uma caneta daquelas antigas, de quatro cores... Onde podemos uma vez ou outra ressaltar algum acontecimento colorindo com cor diferente, sublinhando ou desenhando umas estrelinhas... Mas que no entanto, como outra caneta, não é a ideia para rascunhos, pois não podemos apagar sem deixar uma grande rasura... Passar a limpo?! Talvez dê tempo, talvez não...

2 comentários:

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