sexta-feira, novembro 12, 2010

QUAIS SÃO OS LIMITES? (by Rê Michelotti)


Hoje desde cedo, muitos canais de mídia noticiaram a agressão de um aluno contra sua professora em uma escola técnica particular de Porto Alegre/RS, onde após receber uma nota baixa, o aluno acabou por atacá-la com violência.

Como também sou professora, o assunto mexeu mais uma vez com meus pensamentos e desta vez também com meus nervos. Fico estarrecida ao ver nosso cotidiano invadido cada dia mais por notícias desse nível acontecendo dentro de instituições educacionais.

Neste momento volto a questão sempre gritante da falta de limites do ser humano. Aí me pergunto: A que ponto será necessário chegar à falta de respeito aos profissionais de educação, para que alguma atitude seja tomada para mudar de vez este cenário?!

Se a educação vive hoje um dos melhores e mais ricos momentos de apropriação e disseminação do conhecimento possibilitado pelo avanço tecnológico, por outro lado, vive também um momento delicado no que se refere as interações humanas (aluno-professor) nas instituições de ensino de todo o nosso país, independente do grau escolar que estejamos falando.

Por décadas vivenciamos aquela educação castradora e punitiva, onde aluno não tinha voz ou vez dentro de uma sala de aula, e ao professor cabia repassar os conhecimentos com severidade. Severidade que lhe dava inclusive o direito a castigar os alunos quando este considerasse necessário. Uma educação extremamente rígida e pouco apropriada quando se pensa na questão do desenvolvimento do afeto, respeito mútuo ou ainda da falta de incentivo a participação do aluno na construção de seu próprio saber.

No mundo de hoje, alunos e professores buscam sintonizar esse relacionamento de forma mais equitativa, agregando valor ao diálogo como meio para construção de um ambiente de aprendizado fértil, interessante e que funcione como fonte de inspiração para ambos continuarem aprendendo e ensinando respectivamente. O professor não é mais mero repassador de conhecimentos, mas sim um intermediador, que questiona, instiga ao pensamento criativo e crítico. Em contrapartida, temos alunos que exigem seu espaço e querem formar suas próprias opiniões.

Bem, até aqui tudo certo, concluímos que houve uma evolução positiva na relação aluno-professor ou professor-aluno, como queiram, quando se faz uma breve retrospectiva, ainda que superficial, de como foi e de como esta a educação hoje. No entanto, com olhos de educadora penso também no peso das modificações na estrutura familiar, nitidamente transformada se compararmos o ontem e o hoje.

Na minha prática diária em educação, na convivência com os alunos, sejam eles adultos ou adolescentes, os sinto em constante aflição. Não há muitos momentos de tranqüilidade, de amparo e orientação no núcleo familiar. Os alunos adultos - muitos já pais - se prendem ao fato de ter de prover a família como uma justificativa de sua ausência e atenção ao filho. Os adolescentes que ainda mantém a posição de filhos, mostram-se pessoas solitárias, inseguras e sem um norte certo de como devem continuar sua caminhada.


Este desencontro entre pais e filhos traz uma série de conseqüências sentidas especialmente dentro das escolas e que às vezes culminam em cenas tão tristes como a da professora que foi agredida em seu ambiente de trabalho. Pois a questão não é só a ausência simples e pura, mas o que tudo isso implica na vida de tantos pais, filhos e também professores.

Os pais trabalham muito para conseguir dar conta de sua família e até mesmo de coisas por vezes supérfluas ou perfeitamente dispensáveis, mas que ficam gravadas a ferro e fogo pela mídia, como uma necessidade de vida ou morte. O trabalho consome pais, e estes não conseguem mais dar apoio aos seus filhos, tampouco alguma orientação. Um pouco por falta de tempo, outro por se sentirem de certa forma culpados por sua própria ausência, ainda que justificada em termos. Assim, quando estão juntos, evitam cobrar ou exigir do filho algo. O contrário também acontece. Alguns esquecem de dar afeto e só cobram o tempo todo, sem ao menos dar algum suporte. Desta forma, educar passa a ser algo única e exclusivamente de responsabilidade da escola e dos educadores que dela fazem parte. Complicado, não?! Muito!

Chegam a escola cheios de vontades, mimados, achando muitas vezes que podem tudo - sem nenhum limite - e totalmente revoltados com o mundo. Outras vezes carentes e inseguros, que quase da mesma forma os atinge negativamente, comprometendo sua integração com o grupo e com seu aprendizado como um todo. Faltam limites para aproveitarem o que é bom. Faltam limites para evitarem o ruim, ou mesmo o que não é tão bom assim. Faltam limites para organizar suas vidas dentro daquilo que é realmente bom para eles, para o grupo com que convivem e para sua própria família.

Escola e família devem trabalhar em conjunto, falando a mesma língua ou o mais próximo que isso seja possível. No entanto, precisamos ressaltar que os jovens passam uma fração muito pequena dentro da escola, comparado ao tempo que ficam com a familia ou em convivio social. Assim sendo, não há como esperar que a escola sozinha, se responsabilize pela educação global desses alunos.

É preciso ajustar nossos objetivos e responsabilidades como pais e como educadores. Juntos podemos auxiliar e fortalecer as coisas boas que desejamos que estes jovens desenvolvam. Agora, se ficarmos separando pais de um lado, escola e educadores do outro, vai ser apenas mais um jogo de empurra-empurra que não vai ajudar a ninguém. A soma de nossos esforços podem dar novo rumo a educação e ainda banir do nosso noticiário situações como as presenciadas por nós e sofridas por mais uma professora hoje.

Juntos, pais e educadores podemos continuar. Separados, muito díficil. Infelizmente muitos professores estão mudando de profissão, estão cansados de uma luta muitas vezes solitária frente a tantos problemas, e isso me preocupa especialmente como mãe... Afinal, podem existir ex-professores, mas ex-mãe ou ex-pai não... Ainda que não tenhamos mais professores para nos ajudar na educação de nossos filhos, teremos que seguir de qualquer jeito. Sozinhos!

Todo mundo precisa de limite, mas alguém precisa dizer qual é!!!

P.S: Este texto é apenas um desabafo, onde as idéias expressam nada mais que uma opinião particular minha frente as coisas que vejo, e como vejo na educação.

2 comentários:

  1. Oi Rê!

    Bom que possamos refletir sempre, pois sem reflexão acabamos concluíndo e limitando nossos pensamentos.
    Por refletir muito, penso em um conjunto de fatores que poderiam fazer toda a diferença, no que diz respeito ao processo de desenvolvimento do ser humano.
    Alguns irão dizer que é utopia, mas se agir de forma preventiva e lógica for utopia, então...o nome deve ser mesmo este. Não me importo com nomenclaturas.
    Educação, artes, saúde mental, alimentação, atividades esportivas, desenvolvimento da sensibilidade e criatividade, auxílio psicológico para a família e etc...
    E vai longe a listinha de procedimentos preventivos, mas com certeza valeria a pena investir.

    Não sou do tipo que diz "Agora não adianta mais. Só cadeia resolve".

    Sou do tipo que não entende o imediatismo.


    Com a sua licença deixo aqui um clip provocativo

    http://www.balaiovariado.com/2010/01/menina-condenada-morte-baseado-em.html

    E também dois posts igualmente provocativos

    http://www.balaiovariado.com/2010/02/tira-se-responsabilidade-do-governo-e_07.html

    http://www.balaiovariado.com/2010/07/voce-nao-estimula-criatividade-de-seus.html


    Parabéns pelo blog!!
    Balaio Variado

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  2. Oi Rê

    Recebi seu recado no post do meu blog.
    O primeiro post é um clip e está na página que você comentou. Basta clicar na imagem.
    Os outros dois posts que indiquei, não são vídeos e sim textos. Basta você pegar o link (acima) e inserir (copie e cole) lá em cima na barra de busca. Vai dar direto na página com os textos.
    Espero que consiga resolver logo.

    Bjs e obrigada pelo comentário que deixou lá!

    Balaio Variado

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