quinta-feira, dezembro 16, 2010

O ópio do trivial (by Rê Michelotti)

Foto by Rui Pajares
Disponível em:http://corbinariaphoto.blogspot.com


Outro dia escutando uma música do Engenheiros, banda gaúcha que adoro e quanto mais escuto, mais me identifico com suas letras e músicas, me deparei com um trechinho que me deixou pensando. Dizia: "[...] A visão do microscópio é o ópio do trivial [...]". Aí, estou há dias com essa frase na cabeça. O que seria o ópio do trivial?

Pensando separadamente nessas duas palavras, temos conceitos distintos, onde se pode definir o ópio como uma substância extraída da papoula sonífera, que provoca euforia, seguida de um sono onírico; ainda que seu uso repetido conduza ao hábito, à dependência física, e a seguir a uma decadência física e intelectual, uma vez que é efetivamente um veneno. Já o trivial nada mais é do que algo comum, banal, descrito como sem grande importância por ser já tão conhecido. Assim, chegamos a duas definições relativamente simples e conhecidas, mas que no entanto, quando postas juntas estas palavras, nos levam a refletir de uma forma mais ampla e nos dizem muito mais do que estes breves conceitos literais.

Em uma entrevista, Umberto Gessinger - vocalista do Engenheiros - comenta, que em geral as pessoas fazem interpretações que talvez nem quem compôs a música havia pensado. Ou seja, música é uma arte e cada um sente a seu modo. Assim, arrisco-me nas linhas seguintes em apresentar que pensamentos/coisas esse ópio do trivial traz a minha mente.

Quanto mais tecnologia a disposição, mais informação. Isso faz com que a disseminação de idéias seja facilitada e outras tantas coisas se multiplicam numa rapidez tremenda. No entanto, esse multiplicar repete sempre mais do mesmo. Pensando no mundo virtual, temos uma infinidade de redes de relacionamentos sociais, que em nome são diferentes, mas em essência ou objetivo são muito parecidas, se não idênticas. Quantos blogs diferentes falando das mesmas coisas... Multiplica-se o mesmo com alguma variação, ou ainda como diria o Engenheiros em outra música sua: "variações de um mesmo tema". Cada um tentando dar a sua versão, tentando encontrar outra identidade para algo que não seja assim tão igual.

Se pensarmos na moda é assim também. O jeans existe desde que me conheço por gente, ou mesmo antes disso, e todo ano ele vem com uma cor diferente, um corte diferente... Mas diferente do que? Do ano passado! Pois ele voltou a ser como já foi há um tempo. Com sapatos a mesma coisa, neste ano são saltos finos, no outro serão grossos. Em um ano são altos, no outro baixos. Se falarmos em relacionamentos, por incrível que parece a linha também segue assim. A moda já foi casar na igrejam no papel bonitinho, depois não mais. Depois, legal era apenas morar junto ou juntar os trapos como costumamos brincar em situações assim. Hoje parece estarem os casamentos voltando de novo. E assim, a multiplicação do mesmo, com alguma pequena variação segue sem parar.

Será que nossa capacidade criativa se esgotou?! Será apenas uma limitação criativa de inovar temporária?! Ou as coisas são assim mesmo e tudo está seguindo o fluxo que deveria?! Vamos levando assim, querendo ou não, me parece que é o jeito de ser das coisas mesmo. Queremos apenas pontos de vista originais e não sermos apenas mais um dos seguidores da massa. Parece-me que quando se pensa sempre igual a todo mundo, no fundo é porque não estamos pensando sobre nada. Estamos apenas seguindo o fluxo. Não seguir o fluxo não significa estar necessariamente errado. Como dizia minha mãe, "não é porque todo mundo vai se jogar da ponte que eu também vou". Queremos acreditar que alguém ainda vai descobrir algo no mesmo que a gente ainda não viu. Desejamos novas versões do mesmo, do igual... Seja na forma de interpretar, abordar ou expressar os pontos de vistas... Ou ainda de contrariar de forma coerênte a repetição.

Assim, o "Ópio do Trivial" me parece estar relacionado com esse bombardeio de repetições ou variações do mesmo tema, mas que de alguma forma ainda nos seduzem pelas sutis diferenças incorporadas por pessoas tão diferentes que nos mostram a seu modo como uma repetição nunca é fiel e sempre se pode apimentar, aliviar, refrescar, mascarar ou simplesmente falar sem floreios sobre qualquer coisa. No final das contas, o quase igual repetido, toma novas texturas até nos convencer de que é novo, ainda que não seja. O ópio que nos alucina esta na busca que uma vez ou outra nos presenteia com um jeito novo de ver ou sentir o mesmo. É tudo aquilo que é simples, cotidiano e rotineiro, mas ainda assim nos proporciona alguma reação ou prazer. É tudo aquilo que poderia ser banal pela repetição e simplicidade da falta de novidade, mas que de alguma forma nos tira do eixo, do centro e mexe com alguma coisa dentro de nós. Que nos causa raiva, alegria, medo, excitação, uma sensação esquecida ou não ainda experimentada.

Que o ópio do trivial possa nos dar o melhor do cotidiano, da rotina que muitas vezes nem é quente, nem é fria. Eu não gosto do morno. Eu não gosto de nada que se diga que é "mais ou menos". Ou é mais ou é menos... De preferência, mais do que esperamos!

Me permito então, sem grandes pretensões de fazer este ou aquele concordar comigo, dizer que muitas vezes ou em muitos momentos nos percebemos todos tão iguais, mas que ainda assim, nossas pequenas diferenças nos tornam seres infinitamente únicos e incomparáveis. A forma como buscamos, encontramos, interpretamos e expressamos o nosso mundo, este é para mim o Ópio do Trivial. Ópio que nos faz suportar a rotina, o cotiano, o dia a dia ... enfim, a vida... Graças a essas tantas variações, dadas por cada um de nós de forma tão particular... A vida e o mundo nos mostram sempre um algo mais.

O ópio em excesso pode ser considerado um veneno, porém, até mesmo o remédio pode tornar-se um, dependendo do quanto ingerimos. Aqui o ópio será ministrado em doses homeopáticas, devidamente medidas e na proporção exata para apenas provocar uma leve euforia, um relaxamento e depois conseguirmos dormir em paz com nós e o nosso mundo. Aqui vou desejar sempre e mais ópio, ainda que do trivial.

Um comentário:

  1. Anônimo2:17 AM

    O ópio do trivial para mim,

    É como coisas simples e cotidianas ainda mexem com a gente, nos faz sentir bem.
    As simples mas as boas coisas, como beber um bom café, aquele banho no fim do dia antes de dormir, enfim, as tantas coisas simples e cotidianas mas que nos faz muito bem!

    Sobre tudo o que vai e volta, como na moda, na musica, politica e até mesmo na sociedade, no comportamento das pessoas, e que em algum momento nos vendem como sendo algo novo quando na verdade é apenas mais do mesmo, penso que pode ser sim mais do mesmo, mas em sua grande maioria, nos apresentam esse mais do mesmo, de um ângulo diferente, por um olhar um pouco diferente daquele que se esgotou olhar a algum tempo atrás. Até porque convenhamos, se for exatamente igual, com o mesmo olhar que estamos cansados de ver, não nos chamaria assim tanta atenção.

    Mas o ópio do trivial, também pode ser aquele prazer inexplicável de estar com alguém que ja estivemos muitas vezes, mas que a cada vez que se esta novamente junto, sentimos tudo o que o ópio no seu sentido mais conceitual pode nos dar.
    E assim, o que poderia, ou deveria parecer trivial, ainda é o nosso ópio, que nos embriaga e nos alucina de uma maneira inexplicavel e intensa.
    Dependencia? Vicio? Que se dane! Quero sentir novamente esse ópio!

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