sexta-feira, janeiro 14, 2011

O Inferno é Aqui (by Rê Michelotti)

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A gente não precisa ir a lugar algum para descobrir onde é o céu ou onde é o inferno, ambos estão aqui neste mundo mesmo.
Todas as coisas boas, os momentos de intensa alegria, satisfação, plenitude, amor, paixão, prazer... Todos estes são um pouco do céu e provamos sua existência por aqui mesmo. Da mesma forma, o inferno é também aqui e não lá... E o comprovamos nos momentos de dor, angustia, solidão, desilusão e desamparo.

Certa vez ouvi uma frase que me marcou muito... Lembro-me daquele momento como se fosse hoje, onde durante a leitura de uma mensagem, juntamente com as orações e preces típicas da noite de Natal eu ouvi o seguinte:

“Às vezes a gente pede muito alguma coisa para Deus e ele demora a nos atender e a fazer nosso pedido se realizar ou até mesmo, não permite acontecer. Aí a gente fica bravo, não aceita que não tenhamos sido ouvidos ou atendidos em nossos pedidos. Mas na verdade não deveríamos agir assim... É preciso acreditar que Deus sabe o que está fazendo. Se nosso pedido ainda não aconteceu é porque não chegou à hora... E se esta não chegar, é porque certamente não era o melhor para nós, ainda que acreditássemos que sim. É preciso ter fé cega, acreditar e esperar pelo nosso momento. Quando e como acontecer será o suficiente para entendermos porque tinha que ser assim, do jeito que Deus escolheu e não do nosso... Para o nosso bem, mesmo que a gente pense que não, é assim que tem que ser”.

Fico eu aqui agora pensando mais uma vez sobre isso... E percebo o quanto minha fé a muito tempo anda abalada... A muito me falta.

Eu não sou do tipo que passo dia e noite pedindo coisas para Deus como se achasse que eu sou a única pessoa nesse mundo que precisa de ajuda... Pelo contrário, em geral me restrinjo a dirigir-me a ele para agradecer algo. Não sei pedir a Deus, acho que é isso. Penso que tem tanta gente precisando de tanto para ele ter que ficar ouvindo meus pequenos dramas pessoais. E talvez, seja justo aí que tenho perdido minha ligação com esse ser inanimado e divino... Me distanciado mais e mais da fé e de tudo que está relacionado a ela.

Tenho sido tomada por uma sensação de extremo cansaço... Chega uma hora que a gente cansa de pedir, a gente cansa de esperar... Aí a gente perde a fé, e sem fé, se vai nossa esperança... Sem esperança, perde-se tudo. E se não há o que esperar, se não há pelo que brigar, nada mais nos vem a mente do que a vontade de sumir do mapa. Ainda que por um breve momento, até que se descubram novas coisas pelas quais se pode esperar!

Quanto tempo é esse que devemos esperar para que as coisas que precisamos/desejamos nessa vida aconteçam?! Não estou pedindo nada absurdo... Eu só quero equilíbrio, eu só quero paz. Nada que vá muito além disso. Será que isso é pedir demais?!

Estou cansada de esperar, e pior, não sou o tipo que vai ficar esperando... ‘’no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar...” ( “Ouro de Tolo”- Raul Seixas). Eu tenho o péssimo hábito de não aceitar qualquer coisa e ponto final. Se é bom ou ruim ainda não sei, mas é certo que eu não me acomodo simplesmente porque é isso que tem para hoje, que é isso que a casa oferece. Daí não sou eu! Sofro, esperneio... Alguns vão dizer que isso não resolve. Ok, não resolve, mas não consigo ser indiferente ao que me acontece ou deixa de acontecer. Tem algum sangue correndo em minhas veias... E não é nada frio!

Essa sensação de que quanto mais se corre mais distante se está... Isso me consome pouco a pouco! Estou perdida, sufocada e não consigo ver a saída... Hoje me parece que o inferno é aqui... Aqui, dentro de mim!

Ouro de Tolo (by Raul Seixas)

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Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Desculpe-me (by Rê Michelotti)


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Tenho percebido uma certa banalização do ato de “Desculpar”. Usam indiscriminadamente esta nobre palavra para tudo e qualquer situação, ainda que esta não seja o suficiente para anular determinados atos. Pensando nisso, busquei no dicionário* um conceito mais consistente para a palavra em questão e lá encontrei a seguinte definição:
Desculpar
1. Sinônimo de perdão de culpa ou ofensa;
2. Alegação atenuante ou justificativa de culpa, ofensa ou descuido;
3. Escusa ou pretexto.

Resumindo, percebe-se claramente que temos o hábito de pedir desculpas quando passamos dos limites com alguém por tê-lo ofendido, nos descuidado com esta pessoa ou ainda quando queremos nos justificar por algo não realizado por exemplo. Até aí tudo bem, é um bom hábito inclusive... Afinal reconhecer nossos erros e nos desculparmos por alguns escorregões fazem parte do bom convívio. Somos imperfeitos por natureza, logo, esta palavra eventualmente vai mesmo se fazer presente no nosso cotidiano. Porém, todavia, entretanto... Tome cuidado se esta palavra estiver no ranking das suas mais usuais.

Se você faz parte do vasto grupo de pessoas que usa a famosa expressão “Me desculpe” incessantemente e indiscriminadamente, fique atento, pois isso pode ser um indício de que você está sendo excessivamente descuidado e ainda está insistindo nos mesmos erros ou deslizes, um após o outro. Sua imagem pode (e vai) acabar sendo ‘’queimada’’ com tantas desculpas repetidas.

Ninguém pode exigir do outro o perdão eterno... Isso é coisa para Santo, para Deus... E cá entre nós, eu não tenho cruzado com eles ultimamente.Vocês tem?! Então meus caros, vamos maneirar nossas ações e atitudes com os demais. Esse negócio de que errar é humano já está passando do limite do aceitável como piadinha sem graça, mas que é levada tão a sério quando convém, diga-se de passagem. Mas se é assim que se deseja encarar as coisas, com humor e uma piadinha para ilustar, temos também uma réplica mais sem graça ainda para esta:“ Se errar é humano, repetir o mesmo erro é burrice”. Estamos entendidos?!
Cada um com os seus problemas... Mas não me venham com argumentos fracos e vagos para justificar suas faltas com o mundo, ou ainda que para uma única pessoa ou situação... Não dá! Tudo que é demais ou repetitivo... Enjoa e cansa! Perdoar tem um limite.
Todos temos um limite, as vezes apenas não o conhecemos até que sejamos testados na prática... Mas todos temos sim um limite para as coisas e que varia de pessoa para pessoa. Eu particularmente estou cansada de ouvir sempre alguém dizendo: Me desculpe! Me desculpe!
Não dá para desculpar sempre. E de novo... E mais uma vez... E outra...
Apenas pedir desculpa não cancela nossos atos impensados ou insensatos. Só pedir desculpas não resolve a vida num passe de mágicas, curando todas as frases que não deveriamos dizer ou ouvir. Só pronunciar o famoso "desculpe-me" não apaga falhas, dores, prejuízos e tudo mais... Não se iluda com um breve pedido desses.

Quer saber?! Me desculpe você, mas perdoar tudo e sempre... não dá mesmooo!!!

* Dicionário Priberam online - http://www.priberam.pt/dlpo/