segunda-feira, setembro 05, 2011

É Preciso Sentir (by Rê Michelotti)

Imagem: Arquivo pessoal Rê Michelotti /2011


"Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar nossas fraquezas. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto pouco salgado, produto de nossa DOR mais profunda.” (Clarice Lispector)

Nascemos e crescemos com a idéia de que temos o dever de sermos extremamente felizes. E ainda que todos saibam o quão utópico é este desejo, passamos nossos dias gastando toda nossa energia nessa incessante busca irracional da felicidade plena. Já escrevi aqui no blog uma vez e repito, não acredito na felicidade desta forma. Não há felicidade plena e precisamos parar de nos preocupar tanto em fazer a vida assim tão e somente feita de felicidade, como se todo resto não valesse nada.

É bom ser feliz? Certamente. Mas é preciso aprender a entender e perceber a felicidade, pois está é tão abstrata, tão subjetiva que por vezes podemos cometer o descuido de não vê-la ou não senti-la bem ao nosso lado.

A felicidade utópica que todos alardeiam por aí é extravagante, barulhenta e plena... Eu não acredito nessa felicidade. Eu acredito em muitas outras formas de felicidade e tenho a certeza que ela consiste em pequenos gestos e atitudes bem mais discretas e sutis.

Eu acredito na felicidade criada pela satisfação de uma boa noite de sono. Eu acredito na felicidade que nasce da alegria de um lindo sorriso de quem amamos. Eu acredito na alegria de rever o sol depois de intermináveis dias de tom cinza e chuva. Eu acredito na felicidade que vem do dever cumprido, da tarefa realizada e da satisfação de nos sentirmos em dia com nossas prioridades mais simples do cotidiano.

Eu acredito na felicidade instantânea que um bom banho quente pode nos proporcionar. Eu acredito numa das poucas sensações de felicidade que pode se dizer por vezes plena, que correspondem ao exato intervalo dos segundos que dura um intenso orgasmo. No mais a felicidade é uma colcha de retalhos que vamos montando dia-a-dia e como toda colcha de retalhos, dá trabalho e leva tempo. É preciso escolher os melhores momentos, recortar as imperfeições, costurar muito bem e não deixar nenhum ponto sem nó.

No entanto, me resta a certeza de que felicidade não é uma obrigação como estão tentando fazer a gente acreditar. O que sinto é que não podemos ter um momento de fraqueza, de medo, insegurança ou mesmo de tristeza propriamente dita. Exige-nos força e coragem o tempo todo. Mas até mesmo o mais forte tem seus momentos difíceis e precisa um pouco do escuro para repousar a alma, descansar o corpo e retomar as forças.

Às vezes não há outra forma de vencer uma tristeza que não a vivendo em sua totalidade. Assim como precisamos viver o luto da perda daqueles que amamos, precisamos também viver o estado de luto para sentimentos que nos desequilibram, intoxicam e fazem mal. Mas isso atualmente tem sido difícil. A tristeza parece não ser algo normal. Se não for alegria e festa 24h do dia, é errado e não pode. Mas é normal, e mais do que poder viver isso, precisamos!

Viver um momento de dor, de tristeza faz parte da vida e cabe a cada um decidir quando é o momento de se recolher para se refazer. Cada um tem o direito de decidir se quer ou não partilhar sua dor... Ou apenas ficar em silêncio até que isso passe. Precisamos respeitar não somente a alegria ou felicidade do outro, mas o que quer que ele esteja sentindo... Inclusive a dor da tristeza de um momento pouco colorido.

Às vezes é preciso ficar no escuro, cobrir o rosto e chorar sozinho. As lágrimas podem não ser a solução, mas vão te acalmar e trazer de volta a um estado de serenidade para resolver o que aquieta a tua alma. É fácil ficar feliz com a alegria de outros, mas quanto à tristeza, apenas quem a sente é capaz de dizer com que intensidade lhe parte o coração.

É preciso perder o medo de assumir nossos instantes de tristeza, mas isso não significa que temos de ser vistos como os dramáticos melancólicos ou depressivos. Isso significa que somos humanos, temos sentimentos e embora sejamos fortes a maior parte do tempo, algumas coisas abalam nossas estruturas sim. Mas isso não faz de nenhum de nós depressivos dramáticos, pois estar triste agora, não significa ser uma pessoa triste.

Acredito que este seja o medo da maioria das pessoas ao não assumirem que estão num momento triste: de serem vistas como infelizes. Mas estar triste não é ser infeliz 100% de sua vida. Estar triste é coisa momentânea, que só pode ser experimentada por aqueles além de viver apenas, sentem... Só nunca fica triste aquele que não aceita esse seu momento por se sentir fraco assim...

Prefe-se muitas vezes continuar usando a máscara da felicidade e continuar com a farsa da felicidade inabalável, fazendo de conta que nunca está ou será suscetível. Não estou aqui brindando a tristeza, pelo contrário, quero minha colcha de retalhos de momentos bons bem maiores do que aqueles não tão bons. Mas quero que, por favor, me permitam sim viver um instante de tristeza sem ter que me explicar que não SOU infeliz, apenas ESTOU triste hoje.

Sou humana, e para mim qualquer coisa só funciona, só se vive de fato quando a gente sente. Tristeza ou alegrias, eles precisam nos preencher, nos fazer sentir que não estamos vazios... Pois só ao vazio não podemos dar lugar. O vazio, este sim devemos temer... Quanto ao resto, apenas nos permitir sentir... E, sentir!


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